Futsal brasileiro, muita paixão e pouca visibilidade

Amandinha, Rodrigo “capita” e outros nomes de influência no futsal falam sobre a realidade da modalidade

Foto: Reproução/CBFS

O futsal, assim como todos os outros esportes, parou com a pandemia da Covid-19. A modalidade teve diversas competições canceladas para este ano e, no Brasil, o calendário de jogos segue indefinido e o cenário preocupante. Mas, para amenizar a saudade, que tal conhecer mais desse esporte apaixonante e tão pouco divulgado em nosso país?

É hora de conhecer mais sobre a representatividade, a seleção, as Olimpíadas, os problemas, as soluções e tantos outros fatores que estão por trás do futsal. Esse cenário será apresentado com falas de quem entende e vive a realidade do assunto, como: Amandinha, Ana Thais Matos, Daniel Pereira, Rodrigo Hardy “capita”, Antonia Silva, Rodrigo Saldanha, Carlos Longen e Julia Rosado.

Representatividade do Brasil

A liga de futsal brasileira é uma das mais fortes e competitivas do mundo, por isso, o Brasil tem muito que se orgulhar. Mais do que isso, é preciso valorizar os atletas que representam o país na modalidade.

Do território nacional, o aposentado Falcão foi eleito quatro vezes melhor do mundo. Aclamado como o melhor jogador da história do futsal pela FIFA, ele é o maior artilheiro de todas as seleções do Brasil (considerando os atletas do campo, da areia e do futsal).

Enquanto isso, no feminino, temos a Amandinha, atual melhor jogadora de futsal do mundo. A atleta do Leoas da Serra (Santa Catarina) e da seleção brasileira carrega esse título por seis anos consecutivos.

Em março deste ano, foram anunciados os melhores do mundo da modalidade pela Futsal Planet. O Brasil, além de ter a Amandinha como melhor jogadora, também conquistou outras premiações: o de melhor jogador com Ferrão (Barcelona); o de melhor goleiro com Higuita (Kairat) e o de melhor jogador jovem com Leozinho (Magnus Futsal).

Além das conquistas dos atletas, também vieram as premiações das melhores equipes. No top 5 estão três times do Brasil: ACBF, atual campeão da Libertadores da América; Magnus, atual campeão do mundial de clubes e vice-campeão da Liga Nacional de Futsal (LNF); e o Pato Futsal, bicampeão da Liga Nacional de Futsal.

A cultura do futsal brasileiro 

“O Brasil foi, é, e sempre vai ser muito forte no futsal”, disse o jornalista e educador físico, Rodrigo Saldanha. Para ele, essa força vem da nossa cultura, da característica do jogador diferenciado, do um contra um.

“Vem do drible, do jogador criativo, com recurso na hora do jogo. Enquanto pelo mundo já é algo mais padronizado. Quem dá tempero ao jogo é o jogador brasileiro e isso explica a festa feita nos times de outros países quando um atleta daqui chega para jogar lá”, acrescentou o educador físico.

Foto: Divulgação

Seleção Brasileira

A seleção brasileira masculina é a que mais venceu a Copa do Mundo da modalidade. E, embora não tenha um mundial organizado pela FIFA, a seleção feminina disputa torneios contra seleções do mundo inteiro. As brasileiras foram campeãs das seis únicas edições desse torneio, o último título foi em 2015 e talvez aconteça outro neste ano aqui no Brasil. Além disso, garantiram mais seis títulos da Copa América de Futsal.

Mas, apesar das maiores conquistas serem do Brasil, muita coisa precisa mudar e evoluir no cenário do esporte brasileiro. E por que isso não acontece? O que falta para o futsal, atrelado ao trabalho dos seus atletas e comissões, ser mais reconhecido e valorizado como merece?

“Se os nossos governantes parassem um pouco de olhar para si próprios e olhassem para o esporte como um todo, veriam como ele faz bem para a humanidade. E, sem nenhuma dúvida, nós teríamos o melhor esporte do mundo em todos os sentidos”, garante Amandinha, melhor jogadora de futsal do mundo.

 

 

“É preciso injetar mais dinheiro no futsal”

Para Rodrigo Hardy, capitão da seleção brasileira e do Magnus Futsal, a modalidade no Brasil faz o que pode com o dinheiro que tem. “Vive de grandes empresários. Tem times da Liga que vive de receitas de torcedor, empresários, prefeitura. […] É preciso injetar mais dinheiro no futsal, grandes patrocinadores patrocinarem não só os clubes como também a Liga Nacional”.

“A gente espera e sonha um dia ter uma organização maior, ter mais dinheiro envolvido. Esperamos o futsal ser melhor vendido para televisão, os atletas também ganharem dinheiro pela sua imagem”, disse Rodrigo Hardy, capitão da seleção ao Aliança Esportiva.

No Brasil, cada time trabalha da sua maneira. Alguns possuem um marketing mais forte, patrocínios. Outros não. “Tem time que precisa ‘remar’ muito para conseguir pagar ‘certinho’ a folha de pagamento do mês, do ano”, disse Hardy. “Falta um pouco mais de carinho e cuidado com o nosso esporte”, concluiu o capitão.

Com o futsal feminino, o problema é ainda mais grave, levando em consideração o preconceito e o machismo existente dentro do esporte. Segundo Amandinha, é necessário parar com as comparações e diferenciação dos gêneros.

“As mulheres também praticam e muito bem! O futsal masculino começou há muito tempo antes da gente. E, por sermos mulheres vai ser mais difícil, vai demorar um pouco mais de tempo, mas as coisas acontecem naturalmente com muito esforço e muita luta”, finalizou a atleta.

Foto: Mônia Cris

Visibilidade 

Um dos maiores sonhos dos atletas e comissões técnicas que fazem o que podem para o esporte se desenvolver aqui no Brasil, é ter mais espaço e ser reconhecido dentro da TV aberta. “Tem que ter algum espaço na TV aberta para o futsal crescer”, reafirma Rodrigo Hardy.

Em entrevista para o Aliança Esportiva, Rodrigo apresentou diversas soluções que podem ser implantadas no futsal brasileiro e que podem melhorar o problema de falta de visibilidade do esporte no país.

Entre as soluções apresentadas estão programas que falem de futsal e mostrem os gols da rodada das competições. Além disso, Hardy acredita que os jogos poderiam ser transmitidos aos finais de semana em canais da TV aberta que não mostram tantos esportes, como a RedeTV, o SBT e a Band.

Além de Rodrigo, a melhor jogadora de futsal do mundo também apresentou medidas para estes problemas relacionados a modalidade e fez um alerta: “Soluções nós temos, mas não depende só da gente para fazer acontecer”.

Novos públicos para o futsal brasileiro

Ainda que falte mídia e investimentos de propaganda dentro dos canais abertos de televisão, o time do “capita”, Magnus Futsal, tem aproveitado bastante as redes sociais para crescer e atrair o público jovem.

“Agora, com as redes sociais, conseguimos engajar mais o nosso público. Com o nosso marketing, conseguimos fazer uma série fantástica no YouTube, que fez com que muita ‘criançada’ viesse para o nosso time”, garante Rodrigo Hardy.

A Liga Nacional de Futsal masculino fechou uma parceria com a TV Brasil, que irá passar os jogos aos domingos, às 11h da manhã. Neste ano, a LNF seria transmitida pela TV Brasil, pelo canal fechado SporTV e pela internet no canal da LNFTV. Mas, com os imprevistos causados pela Covid-19, as transmissões se tornaram impossíveis.

Futsal, uma modalidade apaixonante 

Carlos Longen, atleta de 19 anos do ACF Futsal, é mais um dos que se entregaram para o esporte desde pequenos e que hoje vivem essa grande paixão. “O futsal é como se fosse uma alma gêmea que muitas pessoas ainda não descobriram.” Essa é a definição do futsal para Longen.

Para ele, o futsal brasileiro precisa ser melhorado no aspecto divulgação e financeiro, sendo que um está ligado ao outro. “Se as pessoas deixarem de lado um certo preconceito que existe com o futsal e começarem a assistir mais, ter os seus times para torcer, acesso aos bastidores, prestarem atenção nas jogadas, tenho certeza de que irão se apaixonar pela modalidade”, concluiu Carlos ao Aliança Esportiva.

Foto: Arquivo Pessoal

Assim como o atleta, Amandinha também acredita que quando as pessoas começarem a entender isso, vão valorizar o futsal e ver o quanto ele pode ser vendido, abrilhantado e o quanto as pessoas são apaixonadas por esse esporte.

“É um casamento entre marca, atleta, clube e mídia. Ou seja, os quatro se pagam, os quatro trabalham um para o outro e os quatro crescem juntos”, explicou a melhor jogadora de futsal do mundo.

Ana Thais Matos, jornalista e comentarista esportiva do canal SporTV, é ex-atleta de futsal há mais de 10 anos. Ela contou ao Aliança Esportiva que gostaria muito que a modalidade não fosse esquecida nas escolas.

“Com o crescimento das quadras de futebol society e a facilidade para encontrá-las, cheguei a temer que o esporte tivesse dificuldades para permanecer ativo na base. Porém, o futsal é fundamental, como base técnica para qualquer atleta de futebol”, analisa a jornalista.

A atmosfera dos ginásios de futsal 

Um dos fatores que realçam a paixão pela modalidade é a atmosfera dos ginásios de futsal que são diferentes das demais. A quadra lotada, jogos eletrizantes com destinos incertos e histórias que podem tomar capítulos diferentes nos milésimos de segundos de uma partida.

“O barulho da torcida é algo ‘muito louco’ nos ginásios. Fora que o salão é muito mais dinâmico e tem uma emoção diferente da do campo”, disse Claudia Rosado, mãe da atleta Julia, popularmente conhecida como “Jujugol”.

Os pais da Juju estão sempre presente nos seus jogos, sejam eles na quadra ou no campo. A jogadora de 10 anos já consegue perceber a diferença da modalidade na sua vida. “O salão me ajuda muito nas decisões que preciso tomar no campo, eu tenho que pensar e agir rápido. O futsal me ajuda em tudo, tanto no esporte como na vida”, concluiu a atleta.

Pais de Jujugol comemoram título da filha após disputa de pênalti na Copa Paulista de Futsal Feminino Sub-10 (LRFS) – Foto: Ricardo Silva

A ligação entre o futsal e o futebol

Nomes de referência para o futebol brasileiro tiveram quando crianças a base do futsal e passaram pelos fundamentos da modalidade antes de ir para o campo. O exemplo disso é que 12 dos 23 convocados por Tite para a Copa do Mundo da Rússia, no ano passado, foram atletas federados de futsal na infância. Entre eles, Neymar, Philippe Coutinho, Marcelo e Marquinhos.

Há pouco tempo, o principal nome do futsal no Brasil e no mundo, Falcão, fez uma live com Ronaldo Fenômeno. O jogador de futebol revelou que o gol de bico na semifinal da Copa do Mundo de 2002 foi um recurso adquirido durante a infância jogando futsal.

Portanto, Fenômeno é mais um dos futebolistas brasileiros que teve fundamentos extraídos das quadras e implantados no campo. Ou seja, pelos treinamentos com ênfase na velocidade, habilidade, controle de bola e raciocínio rápido, construir uma formação de base jogando futsal é investir na categoria e garantir grandes revelações ao futebol brasileiro.

Esse é um pensamento defendido por Falcão, que está quase para ser implantado em times europeus. Segundo o site “Falcão12”, o plano do craque e de Marcos Sorato, ex-treinador da seleção brasileira de futsal, é aplicar o futsal nas categorias de base e os métodos de treinamento até determinada faixa etária, fazendo a transição gradual para o campo.

Antonia Silva é zagueira da seleção brasileira de futebol e do Madrid CFF. Ela iniciou a sua carreira no futsal e contou que suas características de marcação e de pensamentos mais rápidos para tomadas de decisões foram coisas que aprendeu no futsal e levou para o futebol.

“Eu tenho a certeza de que é graças ao futsal que consigo desenvolver várias coisas dentro de campo”, enfatizou a atleta sobre a contribuição do futsal para o seu desenvolvimento.

O futsal nas Olimpíadas 

O único ouro olímpico do futsal brasileiro foi em 2018, nos Jogos Olímpicos da Juventude. O Brasil venceu a Rússia por 4 a 1, em Buenos Aires, na Argentina. Contudo, depois disso, nunca mais teve outra oportunidade.

A mesma situação ocorreu nos Jogos Pan-Americanos de 2007, quando o futsal esteve na competição e novamente a seleção brasileira masculina foi campeã.

Falcão comemora medalha de ouro nos Jogos Pan-Americanos de 2007 Foto: Divulgação / COB

Estar inserido no cronograma olímpico seria o “sonho” da modalidade, e um excelente passo para o seu crescimento. Grandes nomes do futsal lutam há anos para que o esporte se torne olímpico, contudo, e, infelizmente, essa ainda é uma realidade distante.

“Sempre me questionei como que o futsal, um esporte tão completo, nunca fez parte dos planos olímpicos. O mesmo vale para o futevôlei. Um país que teve nomes como Falcão, Manoel Tobias, Gera e entre outros da modalidade, não viu (parece) cenário político favorável para ser inserido em um projeto olímpico”, analisa Ana Thais Matos.

O “BRFUTSAL” é o maior canal no YouTube do Brasil sobre a modalidade e publicou um vídeo com o Fellipe Drummond, presidente do Magnus Futsal, e Bernardo Caixeta, gerente de relações esportivas na Penalty, falando sobre esse assunto.

Eles foram até o Comitê Olímpico do Brasil (COB) levantar essas questões referentes à inserção do esporte nas Olimpíadas, mas saíram com a resposta de que o futsal ainda não atende todos os pré-requisitos do caderno de encargo do Comité Olímpico Internacional (COI) para ser uma modalidade olímpica.

Entre os pré-requisitos não atendidos, o mundial feminino ainda não é chancelado pela FIFA, o mundial de categoria de base ainda não existe e as regras do esporte não serem as mesmas em todos os países.

O futuro pós-pandemia

Em decorrência a pandemia de Covid-19, diversas competições para este ano foram canceladas, incluindo a Copa do Mundo de futsal masculino que aconteceria na Lituânia e o Torneio Mundial de futsal feminino que estava programado para ser em julho. O esporte segue com o calendário de jogos incerto, visto que a situação do Brasil em relação à doença é uma das mais sérias e delicadas até o momento.

Ainda assim, esportes como o futebol já estão se preparando para um possível retorno de treinamentos e jogos. No futsal, ainda não houve nenhum pronunciamento de volta por meio das entidades responsáveis pela modalidade, apenas de cancelamentos.

Daniel Pereira, narrador do SporTV, falou com o Aliança Esportiva e disse que o cenário pós-pandemia é visto com muita preocupação. “Não é um esporte que ‘nada’ em dinheiro. E no Brasil, podemos ter uma recessão de patrocínio e com isso cair um pouco da verba do futsal”.

Contudo, o narrador falou que há muitas pessoas boas lutando para que isso não aconteça.

A LNF e a TV NSports, com apoio de Umbro e Krona, lançaram recentemente o Pay-per-view da Liga Futsal. Além de ajudarem as receitas das equipes, os assinantes terão acesso às transmissões dos jogos da edição especial de 25 anos da LNF via streaming e conteúdos exclusivos.

Mesmo com um futuro incerto, Ana Thais Matos diz que “o importante é entender que as ligas são fortes e merecem cada vez mais destaque e o esporte jamais será abandonado”.

O desejo da melhor jogadora de futsal do mundo

A esperança de dias melhores com o fim da pandemia, para Amandinha, vem atrelada ao sonho da profissionalização. “ Todo atleta de futsal trabalha para que um dia a FIFA reconheça a nossa modalidade de forma profissional”.

A melhor do mundo fica na dúvida se a sua geração conseguirá viver esse momento no futsal. “Quem sabe a próxima. Continuaremos em busca do crescimento para que as futuras gerações possam colher aquilo que a gente tanto sonha para a modalidade” finalizou.

Foto: Arquivo Pessoal

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