Medalhista Pan-Americana oferece aulas para crianças em situação de vulnerabilidade

Projeto social muda vida de famílias de comunidades por meio do esporte

Medalhista Pan-Americana, pernambucana e cria da comunidade do Barro, a sensei Vanessa Araújo Campos, de 36 anos, é licenciada e bacharel em Educação Física e fisiologia. Ela faz parte da Comissão Técnica da Federação Pernambucana das Associações de Karatê e atua desde 2010 na Casa de Rodolfo Aureliano, onde desenvolve um trabalho que visa à preparação de atletas para competições de nível nacional e internacional, além de melhorar a qualidade de vida de crianças, jovens e adultos.

Casa de Rodolfo Aureliano

Com sede no Rio de Janeiro e Casas espalhadas por quase todo o Brasil, o projeto social Lar Fabiano de Cristo atende famílias em situação de risco e vulnerabilidade social, com a missão de acolher, oferecer proteção social e educação transformadora, visando um mundo melhor. Desde 1973 na ativa, a Casa de Rodolfo Aureliano, situada no Bairro da Várzea, no Recife/PE, auxilia crianças, adolescentes, adultos e idosos da comunidade local e bairros próximos à unidade, que precisam residir nestas localidades para terem acesso às atividades desenvolvidas pelo projeto.

“Uma instituição sozinha não tem braços e pernas para caminhar, nós precisamos buscar as redes, parcerias, fazer trabalhos conjuntos para poder caminhar e sermos fortes, pois sozinhos e isolados não conseguimos nada”, explica a supervisora da Casa de Rodolfo Aureliano, Sandeji Alexa de Melo Carvalho.

O trabalho feito pela obra atende todo núcleo familiar, e todos os membros da família devem estar inseridos nas atividades das oficinas e no serviço de Fortalecimento de Vínculo. A unidade oferece oficinas de karatê, judô, dança, pintura e marcenaria. No dia 14 de dezembro, a unidade completa 46 anos de existência. Confira nossa entrevista com a sensei Vanessa Araújo Campos:

Você já se sentiu discriminada por ser carateca? Se sim, cite um episódio.
Vanessa: Sim, inclusive nesse ano, quando fui escolhida para fazer parte da Comissão Técnica Feminina. É a única comissão feminina de karatê do país na história e houve muita resistência, inclusive dos professores homens, pelo fato de duas mulheres estarem à frente. Mas nós conseguimos e colocamos Pernambuco em quinto lugar no geral na etapa do Campeonato Brasileiro de Karatê e renovamos por mais três anos na Comissão Técnica Feminina, direcionando a Federação Pernambucana das Associações de Karatê.

Como foi a sua chegada no projeto e a relação com as histórias dos seus coparticipantes?
Vanessa: Entrei no projeto em 2010, fui indicada por muitos atletas que já existiam. Treinava com eles na Seleção Pernambucana e eles me indicaram para aqui, com a saída do professor anterior. Me identifico muito, porque gosto de projeto voluntário em área de vulnerabilidade, tanto moral quanto material, porque é uma área na qual também nasci, onde via drogas, prostituição e crimes constantes. Então me identifico muito e quero passar tudo que eu passei nesse caminho e como transformei a minha vida. Embora com todas essas atrocidades, eu consegui vencer, ser técnica profissional da área e muito bem-sucedida.

Já parou para pensar o quão você é importante para seus atletas?
Vanessa: Muito, inclusive não só como educadora, mas também como um grau de gênero em forma de mãe. É muito importante, porque o esporte é um instrumento muito forte enquanto exemplo na vida desses jovens e eles me têm muito como exemplo modelo para sociedade. Portanto, eu me vigio bastante enquanto profissional e como pessoa, na minha ética e moralidade, para não falhar isso com eles, já que é tão difícil tirá-los da área de vulnerabilidade, porque a sociedade oferece muito mais atrocidades e agressividade do que realmente uma educação transformadora. Eu estou aqui para batalhar junto com eles.

Qual a sua visão da desigualdade que existe no karatê feminino?
Vanessa: Embora ainda a prática maior seja masculina, a mulher tem quebrado, inclusive na história da nossa humanidade, vários padrões, principalmente de posição de qualificação, de forma igualitária ao homem. Já mostrou em termos de inteligência emocional ser muito mais forte que o homem, e assim, embora o esporte seja mais praticado pelo gênero masculino, tem sim atingido muitas mulheres, sendo até referência mundial nas Olimpíadas, em Jogos Pan-americanos e Sul-Americanos. As mulheres estão servindo de exemplo para humanidade.

Quais ensinamentos você passa para os jovens que sonham em se tornar profissionais?
Vanessa: Que apesar de todos os sofrimentos, das características familiares, sociais, culturais e políticas que passam no nosso país – que não é fácil, inclusive em um país que ensina muito mais a corrupção, ao desalinho e conflitos –, que mesmo diante de todas essas situações, existe sim o amor, o bem e que o nosso país é forte e que devemos acreditar. Eu sou muito honrada de ter nascido no Brasil e estar no planeta Terra, inclusive de ser nordestina, porque a gente sabe que tem muito preconceito, tanto no esporte quanto em todas as áreas, mas queria e quero ser um exemplo de como todo mundo pode acreditar, como eu acreditei.

Como você conheceu o karatê e quem a influenciou a entrar na arte marcial?
Vanessa: Entrei no karatê com cinco anos de idade e era uma criança agressiva como muitos aqui são, na verdade, a história desses meninos são bem parecidas com a minha. Meu tio me colocou no karatê porque todas as artes marciais têm uma filosofia maravilhosa e são a base de tudo. Não é só os ensinamentos de ataques, defesas e golpes, mas a filosofia é você se defender por meio da palavra, da razão e ação, isso me fez uma pessoa diferente e eu acredito nisso como ele acreditou em mim. A filosofia do karatê vai sim transformar a qualidade de vida e a promoção da saúde de quem quer que seja atleta profissional, mas muito mais que isso, ser um humano bom e honesto.

Quando você viu que o karatê era realmente aquilo que você queria?
Vanessa: Quando realmente me tornei uma atleta profissional, e dentro desse esporte tinha o domínio exato da filosofia. Embora não fosse uma atleta expert, nem ganhasse tantos títulos, eu tinha todo domínio da filosofia, eu sabia o que queria para mim, que ela era uma ferramenta na minha educação, uma forma de me vigiar como cidadã.


 

Gabriel Amorim está cursando jornalismo no Centro Universitário Brasileiro – UNIBRA, em Recife/PE. Apaixonado por futebol e pela área de comunicação, sempre conciliou sua paixão pelo desporto com seu sonho de se tornar jornalista esportivo. Sempre em busca de novos conhecimentos, o estudante vê no Aliança Esportiva uma maneira de expandir seus horizontes e aprender ainda mais, considerando que o esporte é uma forma de interação social.

3 thoughts on “Medalhista Pan-Americana oferece aulas para crianças em situação de vulnerabilidade

  1. Amei a sua matéria Gabriel.Continue desenvolvendo o seu talento na área de comunicação. PARABÉNS! É SÓ O COMEÇO! Continue brilhando ! Estou na torcida pelo seu sucesso .

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *